Autor dos disparos era vizinho do agente da PSP e há muito implicava com o cão deste, um rottweiler.
António estava junto ao carro quando foi alvejado. O filho de 23 anos foi em seu socorro e acabou também baleado.
Ao lado de António, 50 anos, agente da PSP e motorista do gabinete do primeiro-ministro, e do filho, ambos falecidos na sequência dos tiros, estava a razão aparente para a raiva do vizinho que disparou: o cão do agente. Um rottweiler - "já velhinho, nunca fez mal a ninguém", dizem os vizinhos - e que no meio da confusão estaria ainda à solta ontem à noite, depois da morte do dono.
Do incidente com o vizinho das vítimas - um homem de 77 anos que tentou depois suicidar-se, sem sucesso, e foi detido - resultou também a morte de um GNR, de 25 anos.
Foi o som dos disparos que alertou os outros moradores da Rua Alexandre Herculano, na Quinta do Conde, Sesimbra, para um final de tarde que tão cedo não lhes vai sair da memória. "Ainda tenho o som dos tiros na cabeça. Vi a morte à minha frente". É desta forma que uma da vizinhas de Rogério, assim se chama o autor dos tiros, e António começa por contar o que viu. Para logo a seguir esclarecer que "esta era já uma guerra antiga. Já tinha havido discussões entre eles por causa do barulho que o cão fazia. Mas os animais não sabem o que fazem não é? Podemos lá mandá-los calar. E era um animal normal, acho que nunca fez mal a ninguém".
A ouvir a vizinha, João Simões, que mora na casa do outro lado da do alegado atirador, interrompe para defender que o que aconteceu ontem à tarde não foi fruto do calor do momento. "O senhor Rogério já tinha ameaçado muitos vezes o vizinho que o matava se apanhasse o cão na rua. Hoje nem ouvimos nenhuma discussão antes dos tiros. Isto era uma coisa que ele tinha na cabeça."
Os dois moradores saíram para a rua e não perceberam de imediato de onde vinham os tiros. Chamaram a GNR, "quando vimos os corpos no chão", e dois militares apareceram pouco tempo depois, uma vez que o posto fica a cinco minutos do local. E o inesperado voltou a acontecer: à chegada das autoridades são disparados mais tiros e um dos militares "cai inteiro".
"Quando os militares da GNR se estavam a aproximar dos corpos olhámos para a janela e vimos os canos da caçadeira. Só aí é que percebemos de onde vinham os tiros e gritámos para os militares "cuidado que ele vai atirar outra vez". Assim que o rapaz se virou para entrar no carro, caiu". Nuno Anes, tinha 25 anos, e teria chegado ao posto da Quinta do Conde há pouco tempo, logo depois do irmão mais velho, também da mesma polícia, ter saído para o posto de Fernão Ferro.
A luta de Rogério, de 77 anos, contra o cão do vizinho acabava assim com três mortos: um agente da PSP (o dono do cão e seu vizinho), o filho deste e o militar da GNR que foi chamado ao local. O homem, construtor civil muito conhecido na zona e caçador, terá depois tentado suicidar-se. Quando a GNR entrou na sua casa estaria ferido. Foi transportado ao hospital de Setúbal, mas "não corre risco de vida".
O jovem de 23 anos também ainda chegou a ser transportado para o hospital com vida, mas acabou por não resistir aos ferimentos.
Desavenças já com denúncias
Apesar da surpresa pelo desfecho trágico, a verdade é que a desavença entre os dois vizinhos já era do conhecimento de todos. E, segundo os vizinhos, a própria GNR já tinha sido chamada noutras ocasiões e havia "queixas registadas na polícia". Os vizinhos falam em discussões. "Há uns tempos o senhor Rogério já tinha agredido o vizinho com um martelo, e aos filho dele também, e foi apresentada queixa", conta José Simões. Outro vizinho sublinha: "A polícia estava avisada desta situação".
Para quem ontem à noite se juntava junto à rua onde aconteceram os disparos, numa zona residencial da Quinta do Conde, só havia uma explicação para o sucedido: "O homem perdeu a cabeça". A GNR recebeu o alerta por volta das 17.00. Mas o caso complicou-se com a morte do militar que foi no primeiro carro e já a noite ia longa e a zona permanecia isolada. Ninguém passava no trecho da rua Alexandre Herculano onde ficam as casas das duas famílias.
Aliás, João Simões e os restantes vizinhos estavam na rua, como dezenas de pessoas da zona, porque não podiam passar para casa. Foi já depois das 21.00 que os corpos que ainda permaneciam no local - o do agente da PSP e do militar da GNR - foram retirados. Depois de algumas horas com a polícia de investigação criminal a recolher provas. Só aí é que os moradores começaram a desmobilizar para tentar entrar em casa.
A mortes dos dois elementos das autoridades foi já lamentada pela ministra da Administração Interna. Anabela Rodrigues lamentou também a morte do jovem de 23 anos e "endereça as suas sentidas condolências às famílias das vítimas, bem como a todo o efetivo da GNR e da PSP". A GNR também divulgou no Facebook uma mensagem em que dava conta da morte do seu militar e referia que "toda a família da Guarda Nacional Republicana está de luto pela morte deste militar que ao serviço da segurança pública sacrificou a sua vida". Foi ainda criada uma página de tributo aos dois elementos das forças de segurança que perderam ontem a vida.
O suspeito pelos disparos foi detido e a GNR apenas indicava, ontem à noite, que ainda estava a investigar a situação, escusando-se a avançar o que terá motivado o tiroteio. "Ainda não sabemos, estamos a apurar as causas", afirmou o tenente-coronel Jorge Goulão, do comando territorial de Setúbal.
Fonte: DN
