Março de 2014, um mês como tantos outros na minha vida como bombeiro, pelo menos pensava eu, a vida corria bem, sentia-me bem comigo mesmo, tinha a minha família, o meu trabalho com perspectiva de grande mudança, finalmente alcançara um dos grandes sonhos de vida, fazer dos bombeiros vida profissional que tanto ansiava à muitos anos.
E quem sou eu? Bem, não sou nada mais nada menos que um simples bombeiro de 3ª classe, apaixonado por esta bela arte, pelo som das sirenes, da adrenalina em cada saída, pela entrada de um edifício em chamas, pelas cores vivas das chamas a pairarem bem por cima das nossas cabeças, por aquele cheiro característico do queimado e água à mistura, pelo zumbido dos veículos a bombear água ao mesmo tempo em que víamos toda aquela dispersão de meios e linhas de água pelo chão, pelas noites mal dormidas ao relento a observar as brasas incandescentes numa encosta, ouvindo as comunicações constantes dos rádios, observar ao longe e ver apenas o brilho de cor azul dos veículos em outros pontos do incêndio e no final de tudo isto regressar a casa com o sentimento de missão cumprida.
Sou apaixonado por tudo isto e muito mais, sou um bombeiro pertencente à 2ª geração de bombeiros na família, lembrando-me ainda de passear pelo quartel com os meus tios bombeiros também, de correr entre os carros e estar dentro deles completamente maravilhado com aquela vida, tinha eu os meus 4 anos apenas.
Com 10 anos apenas entrei então para a fanfarra dos bombeiros em finais de 1997, não havia então um dia em que não passa-se pelo quartel, aos 11 anos iniciei a minha introdução à vida de bombeiro tendo entrado na escola de infantes e cadetes do meu corpo de bombeiros na altura, tendo começado a aprender as técnicas desta arte ainda que apenas dentro do quartel, tentava sempre quando podia “esgueirar-me” um pouco até à área de formação dos adultos prestando sempre atenção ás técnicas que eles aprendiam, foi então assim que fui progredindo até aos 14 anos, idade em que passei de infante a cadete e fiz uma breve passagem por outro corpo de bombeiros, corpo de bombeiros esse onde iniciei a minha “vida operacional”, fazendo serviços apenas de transporte de doentes como 3º elemento, permaneci nesse corpo de bombeiros cerca de um ano, tendo regressado mais tarde ao meu antigo corpo de bombeiros, após fazer 16 anos, comecei a realizar os meus primeiros serviços de emergência médica como 3º elemento, ainda me recordo da sensação de sair a alta velocidade de sirenes ligadas até ao local, algo que ainda mais me motivava dia após dia.
Aos 17 anos comecei a sair para incêndios em veículos de 2ª intervenção, cabendo-me a função de providenciar abastecimento a outras viaturas e a procura de hidrantes no teatro de operações, após ter 18 anos iniciei então a escola de bombeiros como aspirante ou estagiário como é conhecida hoje em dia, tendo 7 meses depois sido promovido a bombeiro de 3ª classe, um dos dias mais felizes da minha vida tendo existido umas palavras que me marcaram do então presidente da direção na altura do meu corpo de bombeiros, presidente esse que o mesmo fez questão de ser meu “padrinho” como bombeiro e me colocar as divisas de 3ª classe, palavras essas que foram “Aceitei ser eu a colocar-te estas divisas porque com o empenho que demonstras acredito seriamente que um dia serás comandante deste corpo de bombeiros ou de outro qualquer;”
Passado todo estes anos guardado estas palavras comigo.
Fui crescendo neste mundo da mesma forma que este mundo foi crescendo dentro de mim de uma forma que fiz desta arte uma parte de mim, da minha pessoa, da minha identidade, mesmo não sendo o meu emprego uma vez que era voluntário, sempre que me perguntavam o que fazia dizia “Sou Bombeiro”.
Sacrifiquei muitas horas para fazer o que gostava pondo a família “bombeiros” muita das vezes à frente de família, amigos, namorada, tudo..., tudo era colocado para trás, aquela família estava sempre primeiro deixando tudo resto ao toque da sirene ou do telemóvel.
Família esta que ainda me recordo, apesar de um corpo de bombeiros com dificuldades estávamos lá na hora do aperto.
Passado uns anos em 2008, em virtude da minha vida pessoal me obrigar a mudar de morada, pedi transferência para outro corpo de bombeiros mais para o interior do norte do país, corpo de bombeiros esse onde face a problemas pessoais na minha vida acabei por ficar sem tecto tendo aquele corpo de bombeiros me ajudado e acolhido passando eu a ter vivido durante 6 meses no quartel, apesar dos problemas na minha vida pessoal que criaram aquela situação, foram tempos que ainda hoje me deixam saudade, pelo espírito de coesão e amizade daquele corpo de bombeiros como pela forma justa e merecida que reconheciam o trabalho uns dos outros desde a direção, comando e corpo ativo, uma nova realidade mas acima de tudo uma família unida que ali via e, que ainda hoje não consigo encontrar palavras para agradecer tudo o que fizeram por mim.
Em finais de 2009, e face há minha vida decidi concretizar um outro sonho de vida “ser militar”, e uma vez que uma das minhas outras paixões de vida era a aviação militar decidi juntar o útil ao agradável e seguir carreira na Força Aérea Portuguesa como operador de sistemas de assistência e socorro ou como “bombeiro de aeródromo” mais vulgarmente conhecido, tendo continuado na mesma a minha carreira como bombeiro voluntário também, apesar de envergar por uma carreira militar e ao mesmo tempo na área que não me era desconhecida ou seja como bombeiro, deparei-me com novos conhecimentos aprofundados no que respeitava ao socorro em aeronaves.
Fiz colegas, amigos, camaradas e acima de tudo irmãos daquela bela especialidade no seio da força aérea, especialidade essa de um grupo pequeno mas unido os OPSAS, local onde também aprendi a cultivar valores outrora desconhecidos para mim, valores esses como a disciplina, camaradagem, união, operacionalidade e prontidão.
Finais do ano de 2010 terminei com sucesso o meu curso de formação como OPSAS, tendo sido colocado numa base operacional, base essa onde permaneci até ao final da minha carreira militar, permanência essa que me obrigava a multiplicar esforços para cumprir com as minhas obrigações como militar e como bombeiro voluntário, esforços que apesar de tudo, distância da minha unidade para o quartel, vida particular, serviços etc... Consegui quase sempre conciliar tendo todos esses esforços compensado apesar de ter os seus custos tanto monetários como por vezes o sacrifício da minha vida pessoal para cumprir com os outros dois, fui conseguindo cumprir com os objetivos, afinal “Quem corre por gosto não cansa”.
E desta forma, foi passando o tempo até que, conheci a minha esposa atualmente e passado algum tempo decidir “juntar o útil ao agradável”, ou seja, já que estávamos juntos e trabalhava na mesma cidade porque não pedir transferência para o corpo de bombeiros da cidade?
Algo que fiz e com muita pena e saudade acabei por transferir-me para onde se centrava a minha vida naquele momento, longe de imaginar que aquela transferência seria o que chamo hoje do início do golpe mais duro naquela que considero não a minha vida, mas uma parte de mim, ou seja, os bombeiros.
Consegui a minha transferência e, ao mesmo tempo a minha vida profissional ia crescendo com os seus altos e baixos, mais baixos que altos admito, mas devagar e com o apoio sempre daquele “Porto seguro”, a minha esposa com quem desabafava e conseguia ajudar-me a contornar esses pequenos “baixos” na minha vida, tudo parecia ir de vento em pôpa, tinha o meu trabalho, o meu casamento marcado e os bombeiros, todos estes pequenos pormenores que a meu ver me traziam apenas um pensamento “Life is good”.
Após ter entrado ao serviço no corpo de bombeiros notava muitas das vezes apesar de exteriormente ser um corpo de bombeiros “Operacional” a nível de equipamentos, notava uma certa “desunião” por parte dos elementos, existia sempre aquela sensação também de olhares desconfiados para mim, olhares esses que se convertiam em comentários menos agradáveis pelas minhas costas, comentários esses por vezes desnecessários relativos muita das vezes ao meu estatuto que para além de bombeiro de 3ª classe era motorista de pesados, neste caso o mais novo motorista de pesados do corpo de bombeiros, e de certo modo muitas das vezes sem que tal se apercebessem ouvia esses comentários, outros comentários que achava digamos “piada” à situação era o facto da forma como envergava a farda, neste caso ainda hoje continuo sem entender o porquê de esses mesmos comentários existirem pelo facto de usar a farda com emblemas de curso que tenho, equipamento que tem a sua utilidade nomeadamente, lanterna, bolsa com pocket mask, faca etc... , ter umas botas diferentes dos outros etc... situação que apenas me levava a pensar “Afinal qual é o problema?
Tenho sim equipamento, primo pela operacionalidade e parecendo que não dispôr de estes pequenos equipamentos à mão numa situação de emergência poupa tempo e assegura uma pronta resposta, se tenho um bom fardamento e umas boas botas foi decerto porque tive possibilidades para isso e sei que tenho algo que me assegura que é fiável e concebido à realidade atual dos bombeiros”...
Tudo isto pensava eu cá para “os meus botões”, e a piada no meio disto?
Passado uns dias muitos dos “Criticos” apareciam no quartel com os mesmos equipamentos! Mas adiante pequenas situações que decerto muitos de nós que gostamos da área já tivemos o “prazer” de assistir mas que simplesmente ignoramos e continuamos na nossa vida.
Outra das situações caricatas era o facto de em quase todas as formações teóricas existir um constante como nós chamamos “Lavar de roupa suja” em que X atacava Y e vice-versa, julgavam-se infundadamente, situação que me surpreendia muita das vezes pela negativa, poderíamos falar de mil e uma situações mas afinal de contas, estou aqui a falar da minha vida e não a julgar quando não tenho direito para tal.
Mas tudo isto seria estar aqui com a velha demagogia habitual de grande parte dos corpos de bombeiros em Portugal e como tal em todo o lado nem tudo é mau, tinha amigos, camaradas que se preocupavam, e tal como eu queriam elevar e honrar o nome da casa que serviam, amigos esses com quem passei bons momentos e colegas, sim “colegas” que apenas se faziam passar por amigos até à hora do aperto, e mesmo não sendo essa hora, eram aqueles que mal virava costas desatavam com aquela vontade de não entendo porquê criticar, apunhalar e rebaixarem os outros para sua própria satisfação, para tentarem de algum modo “marcar” uma posição de forma covarde e suja;
Ao longo do tempo presenciei e vivi todas estas situações, situações ora por vezes alegres, ora por vezes tristes e maior parte das vezes que me eram indiferentes afinal como disse, não estou aqui para julgar, mas a verdade é que muitas foram graves e simplesmente ignoradas porque as mesmas não eram convenientes a alguém.
O tempo passou, fui cumprindo o meu serviço assiduamente sacrificando muita das vezes o conforto da família, muitas das vezes discutindo com a minha esposa e pondo em risco o meu casamento pela causa bombeiros, até que no inicio do ano surgiu finalmente a oportunidade que tanto ansiava, a oportunidade de fazer carreira no corpo de bombeiros, concorri, fui selecionado e tratei da minha saída da vida militar, finalmente a vida tinha-me dado a oportunidade de realizar um sonho já antigo, dedicar-me a 100% à causa.
Pelo menos pensava eu isto ser verdade, afinal não estaria a fazer este pequeno “desabafo” se nada tivesse acontecido, mas sejamos sinceros, todos temos os nossos “fantasmas” na vida certo?
E eu tal como toda a gente tive os meus, uma noite má, uma bebida a mais, um mau pensamento, uma ilusão criada para me confundir, um ato irrefletido;
E convenhamos sublinhar que este mau momento ocorreu na minha vida particular nada dizendo respeito ao corpo de bombeiros apenas que ambos frequentávamos o mesmo CB tirando isso toda a situação ocorreu fora do lugar e tempo de serviço na minha vida particular.
E é aqui que começa a minha longa batalha, no momento em que uma pessoa pertencente ao CB me aborda chantageando-me, pessoa essa que era mais um daqueles “Cancros” daquele quartel que em nada tinha utilidade, cancro esse que me imputou no fundo algo criado por ele para se livrar de responsabilidades.
O facto é que o mesmo individuo não se satisfez até denunciar a situação de uma forma infundada, denuncia essa feita a alguém que não teria qualquer legitimidade para me punir por um acto relativo á minha vida privada.
A verdade é que ele conseguiu o que queria deitando por terra 17 anos de sonhos e dedicação, o golpe foi tão grande que quando contei a situação à minha esposa, senti que mais nada me restava senão pôr termo à vida, afinal já nada me restava, tentei, felizmente ou infelizmente não consegui, fui totalmente dizimado.
Perante tudo isto, procurei ajuda e tentei convencer o comandante do CB alegando o golpe que sofri e surpreendentemente fui alvo de censura e ainda punido, tendo sido suspenso e mais tarde demitido mesmo face às provas apresentadas por mim da minha inocência, aquela falta de humildade para com quem sempre trabalhou e dedicou grande parte do seu tempo a troco de nada era finalmente revelada e, na primeira hipótese de me destruir eles fizeram-no sem qualquer dó ou respeito por mim, afinal, aquilo foi o que sempre fiz, o que sou e o que quero continuar a fazer, têm sido muitas noites sem dormir, dias a passar lentamente e horas com apenas um único pensamento “Justiça”;
Em toda esta situação penso como é possível aquele grupo de pessoas, “algumas” apenas, afinal como referi nem tudo é mau e ainda tenho amigos e quem esteja do meu lado, mas penso e pergunto como é possível que não tenhamos consciência que estamos a intrometer-nos na vida pessoal de alguém? Se erramos e reconhecemos os nossos erros, porquê aquela necessidade tremenda de prejudicar quem sempre dá tudo por nós?
Será que por vezes não paramos um pouco para pensar e nos apercebemos que todos temos “telhados de vidro”? E se os temos para quê atirar pedras ao vizinho?
Isto leva-me a recordar dois excertos da biblia;
¶ Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados;
dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.
Lucas 6:37-38
Por vezes é mais que sabido que tanto num corpo de bombeiros como em tantos outros sitios, existem pessoas com uma, digamos, certa necessidade de se afirmar perante as pessoas com quem convivem, “rebaixando” os demais para marcar uma posição na sociedade em que estão inseridos, outros deixam-se “contaminar” por indivíduos cujo os mesmos têm “fantasmas do passado” graves e acima de tudo um presente com um lado obscuro na sociedade em que vivem e finalmente existem aqueles que têm raiva ou simplesmente assuntos pendentes com um amigo, irmão, pai etc... daquela pessoa com quem convive e, julga convictamente que a melhor forma de atingir indiretamente essa outra pessoa é prejudicar elemento com quem convive.
Todas estas pessoas são o lado “obscuro” da causa “bombeiros”, pessoas sem cultura, valores éticos e morais à muito abandonados pela sociedade em que vivemos, tudo para tentarem afirmar a sua posição, a sua forma “desesperada” de chegar ao topo, forma essa atingida sem olhar a quem e a meios “sujos” e ilegais muitas vezes, meios esses onde “humildade” é palavra que não consta no seu dicionário, se por alguma razão todos vocês acharem que estou errado, então decerto eu direi que somos uma sociedade condenada aos erros constantes da nossa falta de valores;
Apesar de tudo isto a minha luta por justiça continua, continuo a fazer formação na área às minhas custas e a enriquecer-me dia após dia de novos conhecimentos, continuo a amar o que fazia como bombeiro, continuo a vibrar a cada toque de sirene, continuo a ter saudades das ocorrências, do cheiro a queimado no ar, do som das bombas das viaturas a trabalhar, do brilho dos rotativos azuis, das horas seguidas a trabalhar no meio de uma qualquer serra em chamas, simplesmente tenho saudades do que era e continuarei a ser até que me faltem as forças, acima de tudo e do que possam dizer “SOU BOMBEIRO!”
Moral desta história?
Não julguem! Se de certo modo e como alguém dizia, “Se os teus olhos não viram, não deixes a tua mente imaginar e a tua boca inventar”, todos temos os nossos “fantasmas do passado”, não somos melhores que ninguém, todos temos objetivos na vida e, se ela bater convosco de frente, retaliem de volta!
Mas assegurem-se que não “atropelam” ninguém, ela é curta é verdade, nem sempre conseguimos tudo que desejamos, o importante é o quanto nos debatemos humildemente para alcança-lo e, se não o conseguirmos pelo menos tivemos o sentimento de que não baixamos os braços;
E lembrem-se sempre que somos parte de um grupo unido e cada um de nós no momento da verdade vai ter que olhar para trás e saber que tem aquele apoio, que a sua vida depende do camarada atrás e vice versa, somos o espelho da causa que servimos, somos colegas, amigos, irmãos, somos uma segunda família que temos quando nos despedimos da nossa esposa, filhos, pais etc..., saímos e batemos a porta de casa para mais um dia de serviço no quartel, somos aqueles que são chamados quando tudo falha, somos bombeiros!
E se por acaso algum dia deres por ti a criticar ou de alguma forma te sentires ofendido pelo que os outros dizem, lembra-te deste “desabafo” de um camarada que enverga a mesma farda que tu, luta pelo que queres alcançar como bombeiro, mas acima de tudo pelo que queres alcançar na vida, sê humilde e respeita quem contigo convive em sociedade e nesta causa, aceita quem te ajuda e dá apenas a outra face a quem te quer “bofetear”, mas mais importante têm paciência, o que tiver que ser teu por direito será!
E lembra-te, “Maçãs podres caem por si”, seguindo o texto biblico de à pouco existe um outro excerto que diz “Pela espada matas, pela espada morrerás!”, simplesmente acredita em ti e se realmente gostas mesmo da causa, acredita que lutando pelo que queres conseguirás lá chegar.
E como se diz no meio bombeirístico “Stay safe!”
Assinado: Um bombeiro.
