Um jornal regional de Viseu noticiava na semana passada com chamada de 1ª página “ Poucos bombeiros para tantos incêndios”.
E em sub-título, “ Na última década a região perdeu quase mil bombeiros”.
No interior, lá vinham os números que são sempre interessantes de ler e de comparar, os concelhos com mais bombeiros, os concelhos com menos bombeiros e o número de concelhos, vinte, onde se verificou uma diminuição de efectivos.
O artigo esqueceu-se de identificar os concelhos com mais que 1 CB, e individualizar em cada um o número de bombeiros, distorcendo a realidade e adulterando a verdade.
O texto é uma alerta positivo e merece-me o seguinte comentário.
Do elevado número de inscritos num CB não se pode inferir obrigatoriamente uma sua maior capacidade de resposta, e o inverso igualmente.
Há uma linha que separa a vontade da disponibilidade, e haver muitos inscritos só significa que há muitos voluntários, que há muitos e muitas que se sentem chamados para a causa, o que é de saudar, mas isso não quer dizer que todos respondam à chamada e engrossem a capacidade de resposta do CB.
Pretender fazer uma relação directa entre ambos os elementos da equação, entre o número de inscritos e a sua intervenção em operações, é um abuso intelectual e uma falácia a que os vendedores de banha da cobra lançam mão por conveniência discursiva.
São importantes os bombeiros inscritos, obviamente, mas interessa-me muito mais saber, deles, quantos estão prontos, disponíveis e formados para uma qualificada intervenção operacional, isto é, prefiro um CB com 50 bombeiros, que fazem formação e respondem prontamente “ao toque de sirene” do que ter 120 ou mais alistados, mas que, por razões familiares e profissionais, raramente estão disponíveis para as missões.
Essa é que é a verdade, não me preocupando em demasia que haja menos bombeiros, preocupa-me mais saber se dos menos que há, há mais para uma resposta pronta e qualificada, porque é disso com que nos devemos francamente preocupar e é nessa linha de percurso que devemos investir.
Vontade é uma coisa, operacionalidade é outra, e não esquecendo a primeira, sou muito mais sensível à segunda.
Porque é desta que depende um rápido e bom socorro e a consolidação da boa imagem dos bombeiros o sector da protecção e do socorro.
Considerando sempre a dimensão dos concelhos e a tipologia dos riscos, é preferível um CB curto, formado, treinado, rotinado e robusto do que um CB mais numeroso, mas com insuficiências e deficiências graves na resposta.
Por isso, o texto e os números devem ser lidos com algum realismo e realismo, aqui, quer dizer, relatividade.
O resto são tretas.
Estamos conversados.
Rebelo Marinho in O Zingarelho
