"A Sorte do INEM é Ter Pessoas que Trabalham por Amor à Camisola" - VIDA DE BOMBEIRO

______________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

segunda-feira, 2 de março de 2015

"A Sorte do INEM é Ter Pessoas que Trabalham por Amor à Camisola"


O INEM funciona por turnos, mas as emergências não têm hora marcada. O i acompanhou as primeiras oito horas do dia de Luís e Pedro, dois dos técnicos que patrulham Lisboa de ambulância
Os primeiros 15 minutos de turno são passados a carregar a ambulância com o material necessário para que o check seja feito diante de todos os materiais que compõem a lista de equipamento sem o qual a equipa não pode sair da base. Estamos no número 231 da Calçada da Ajuda e, apesar da entrada pomposa apenas fazer referência ao 4.o regimento de cavalaria da GNR, o espaço alberga, há cerca de um ano, uma das bases do INEM.

“Já sei tudo de cor, nem preciso ir à lista”, garante Pedro Canto, que sai da ambulância às 8h15 a assegurar que está pronta para sair assim que da rádio se ouça “serviço Lisboa 3”, o nome que identifica um dos três veículos que serve a zona da Ajuda, Alcântara, Santo Condestável e Baixa. “Atenção, que estas são as áreas preferenciais, não quer dizer que não sejamos chamados para a outra ponta da cidade se for preciso”, interrompe Luís Ferreira, que completa a dupla de técnicos de emergência do turno da manhã. É até comum que tenham de compensar as carências de equipas de outras zonas da cidade com falta de recursos. “A nossa”, explica Luís, “é composta por 30 pessoas, mas tendo em conta as férias, as baixas e a cobertura de outros turnos, esse número nunca é completo”.

É por isso habitual que os técnicos sejam chamados a fazer turnos extra, o que, por coincidência, aconteceu aos dois no mesmo dia. Pedro saiu à meia--noite de um turno, entrou às oito da manhã e volta a entrar à meia-noite. “É um horário de antibiótico, de oito em oito horas”, brinca. Já Luís entrou às 8h, mas em vez de sair às 16h como estava previsto, foi chamado a substituir um colega e teve de colar um turno extra ao seu, passando a hora de saída para a meia-noite. “A sorte é que não preciso de dormir muito, cinco horinhas e estou pronto”. Por entre sonos trocados, é no beliche e cadeirões da base que os técnicos aproveitam para descansar.

Entre pausas e chamadas Com uma manhã atípica, demasiado calma, Pedro entretém-se a ler “As luzes de Setembro” de Carlos Ruiz Zafón e Luís está no computador, o que os mantém alheios ao som da televisão, parada na TV Globo, um dos poucos canais a dar sem interferências na pequena televisão cinzenta que ajuda a compor o compartimento que lhes serve de base. É preciso passar uma hora e meia de turno para que saltem das cadeiras. Às 9h30 Pedro avisa que foram chamados para um serviço. “84 anos, respiração ofegante e dificuldade em falar”. É o que basta para que Luís assuma o volante e às 9h35 esteja a estacionar na principal rua de Caselas.

Já de porta aberta e receitas na mão está Delfim que, aos 83 anos, cuida sozinho da mulher Augusta, diabética, paralisada do lado esquerdo do corpo devido a um AVC e a depender de uma garrafa de oxigénio para sobreviver. “Tive de aprender sobre doenças, medicamentos e até a dar-lhe banho e de comer”, lamenta Delfim, mas garante “levá-la para um lar é o último recurso”. Sem família a quem recorrer, é na equipa do INEM que se apoia. Desde fins de Dezembro, esta é a quinta vez que chama a equipa. “Vamos ter de ir para o Francisco Xavier, querida”, avisa Luís. Augusta acompanha a conversa com o olhar e apesar da dificuldade em falar, tem a gratidão no olhar. Em esforço, solta um “muito obrigada”. Já na ambulância, Pedro explica que a falta de ar já é comum na paciente, mas que não é isso que os liberta da obrigatoriedade de levar todos os pacientes ao hospital. “E se depois lhe acontecesse alguma coisa, quem é que assumia a responsabilidade?”.

O caminho para o hospital é feito curva contra curva, a uma velocidade que nos obriga a fincar as mãos debaixo do banco para não cair. “Ainda a semana passada recebi uma multa de 300 euros para pagar por ter passado na CRIL a 154 km/hora”, conta Pedro. O INEM justifica as multas pelo serviço de urgência que prestam, mas enquanto a burocracia não avança, as multas ficam no registo pessoal. “É rezar para que não me mandem parar no meu carro”, ironiza.

Com a paciente entregue aos cuidados do hospital, é hora de voltar à base. Mais um café, mais umas páginas do livro, mais um episódio da novela da Globo. “Quando temos turnos calmos como este, costumamos fazer aquilo que chamamos patrulhamento”, explica Luís. Mais não é do que circular a área da qual fazem parte para que os técnicos com menos experiência passem a conhecer o nome das ruas e os caminhos mais rápidos para chegar ao local. Sem GPS, recorrem à memória e a um roteiro com os mapas da cidade. “Não é muito prático, mas para quem já está habituado funciona”. A prova é que na chamada seguinte, não passam mais de cinco minutos desde que a chamada é passada do CODU até que a ambulância chegue até junto do doente.

Tempo de espera São os Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) que recebem as chamadas do 112 e decidem o encaminhamento. Nos últimos meses, têm sido muitas as queixas de doentes e técnicos das ambulâncias quanto ao tempo de demora no atendimento das chamadas, que o INEM justifica com o aumento do número de chamadas para as centrais, principalmente durante os meses de Dezembro e Janeiro.

Segundo dados disponíveis no site do instituto, o tempo de espera no atendimento no último mês variou entre os seis e os 41 segundos, com as chamadas a atingir o pico dia 2 de Fevereiro, com 4316 pedidos de ajuda contabilizados. Este número está acima da média de 2014, que se ficou nas quase 3500 chamadas diárias. No total, o INEM atendeu mais de 1,2 milhões de chamadas em 2014, o que corresponde a um aumento de 61 040 solicitações em relação a 2013. Fonte oficial do INEM justifica este crescimento com o “aumento da actividade gripal”, que se traduziu num aumento de cerca de 20% de chamadas face à média diária. Já para os técnicos, a explicação pode ser diferente. “As pessoas parece que já sabem o que dizer ao telefone para terem direito a uma ambulância”, explica Luís e dá um exemplo: se alguém ligar para o 112 a queixar-se de uma dor muscular, o mais certo é encaminharem para a Linha Saúde 24, mas se a essa dor juntar uma dor no peito, o mais certo é que seja enviada uma equipa de emergência. “As pessoas fazem tudo para não terem de pagar o transporte para o hospital”, lamenta.

Além disso, tanto Luís como Pedro já lidaram com quadros clínicos que se afastavam claramente do carácter de emergência. Os números do Ministério da Administração Interna confirmam esta tendência: apenas uma em cada quatro chamadas que chegam ao 112 são verdadeiros casos de emergência. “A minha estratégia é dizer às pessoas que a presença de uma ambulância num sítio onde não é necessária, pode um dia fazer falta a um familiar seu”, refere.

Desta vez, e à falta de familiares presentes, a chamada foi feita pela dona do minimercado “Pérola da Serra”, na Ajuda. A D. Adelaide é cliente habitual, quase tão habitual como o mal-estar que, desta vez, a levou quase ao desmaio. Luís mede a tensão e os níveis de açúcar e dita mais uma viagem para o S. Francisco Xavier. À chegada, o hospital já sabe o que esperar. “A ficha que vamos preenchendo é comum ao INEM e ao hospital, assim não perdemos tempo a passar dados”, explica Pedro. A partir do momento que entrega a doente, o técnico prefere esquecer o assunto e não perguntar o desfecho do caso. “Não gosto de levar preocupações para casa”.

Apesar de terem de estar preparados para todo o tipo de cenário, a grande maioria das chamadas são para a assistência a idosos, seja por quedas ou mal-estar. No entanto, por cobrirem a área que abrange o Bairro Alto e a 24 de Julho, saídas para assistir intoxicações por álcool são o habitual ao fim-de-semana. Até para as datas festivas, os dois técnicos já sabem como dividir os pedidos de ajuda: passagem de ano é “álcool e porrada”, Natal são as paragens cardíacas, “deve ser o dia do ano que morre mais gente”, garante Pedro.

Os dois asseguram que a formação que têm no instituto tem sido suficiente, mas ambos relembram casos em que ficaram com a sensação de poderem ter feito mais. “Não quer dizer que o desfecho tivesse sido diferente, mas pelo menos vinha para casa com a sensação de que tinha feito tudo o que é possível”, refere Luís. Apesar de já terem sentido algumas limitações, descartam a hipótese de ter um enfermeiro em cada ambulância. “Somos todos necessários, mas cada um com as suas competências. Acho que em 80% dos casos, a nossa formação é mais do que suficiente”.

A chamada seguinte, que só chega depois de almoço, vem provar a imprevisibilidade que um turno pode ter. “Agora é a sério”, avisa Pedro. Um choque entre três carros na A5 e uma senhora de 81 anos encarcerada. No local contamos, por alto, a presença de 16 bombeiros, dois carros de polícia, dois carros de bombeiros e dois carros de assistência da Brisa. O aparato é grande, mas a equipa do INEM não hesita e toma o comando. Luís entra no carro para estabilizar a vítima, enquanto Pedro ajuda a cortar a porta que está a impedir a retirada para a maca. Não passam mais de quinze minutos e Ofélia Rodrigues está a caminho do hospital, desta vez o S. José. “Vamos sempre para aquele mais perto ou com acesso mais facilitado”, explica Pedro, enquanto vai apontando as queixas da vítima, que se mantém sempre consciente. “Guardou a minha medalhinha? É que é de protecção”, pergunta. Pedro passa-lhe a medalhinha para a mão e garante-lhe que ao contrário do que está a dizer, o INEM não demorou muito a chegar ao local e, para isso, recorre aos números do registo. “A chamada caiu no CODU às 15h22 e nós estávamos a caminho às 15h24, numa viagem que não durou mais que cinco minutos”. 

Feitas as contas, passaram-se sete minutos, números que batem certo com o padrão europeu estabelecido que diz que o veículo de socorro em meio urbano deve chegar ao local em oito minutos e em trinta minutos se for em meio rural. “Quando se é vítima, a espera parece sempre maior do que realmente é”, justifica Pedro. Essa deturpação dos minutos de espera já levou a que, à semelhança de outros técnicos, tenha sido já ameaçado por familiares de vítima, por acharem que a demora tinha sido demasiado longa. “Nessas alturas e quando acho que não existe segurança, reporto o caso e voltamos à base sem prestar assistência”.

BURNOUT O INEM tem 762 técnicos de emergência, sendo que trinta destes estão na base da Ajuda. No entanto, Luís e Pedro garantem que a equipa está longe de estar completa, o que obriga sempre a uma média de três turnos extra por mês a cada técnico, para que nenhum horário fique sem cobertura. “Ninguém nos obriga a vir quando não estamos escalados, mas acabamos por fazer pela questão monetária e porque gostamos disto”, garante Luís. Ao salário base de 692 euros, juntam-se mais 25% de subsídio de turno e o subsídio de alimentação. “Se a isso juntar três turnos extra fico com uns 850 euros”, explica Pedro, lembrando que apesar de não considerar que seja um valor justo, percebe que, por serem função pública, não depende só do INEM. Luís é mais crítico e defende que o valor do salário é baixo, tendo em conta a responsabilidade do trabalho. 

“A sorte do INEM é ter pessoas que trabalham por amor à camisola e são naturalmente motivadas para este tipo de trabalho”, garante. Apesar de reconhecer a motivação geral da equipa, Luís não deixa de relembrar casos de exaustão, nomeadamente quando se fazem muitas noites seguidas, muitos turnos extra ou quando os casos são complicados. “O burnout existe, isso sem dúvida, principalmente quando aos problemas profissionais se juntam os pessoais” Luís conta que já recorreu uma vez à ajuda da equipa de psicólogos do INEM, mas prefere não dar pormenores sobre a situação. Apesar de saber que a equipa de psicólogos está disponível para os trabalhadores, não sentiu um maior apoio nessa área, apesar do Instituto garantir que o apoio psicológico está reforçado desde 2013, ano de publicação de um estudo que dava conta que 75% dos técnicos de ambulâncias estava em burnout, um distúrbio de carácter depressivo ligado à vida profissional.

“Não há condições ideais de trabalho em lado nenhum”, lembra Luís, “mas o INEM podia fazer mais”. Ao i, o Instituto explicou que está a decorrer um concurso para a contratação de 85 técnicos de emergência para o INEM e que têm autorização do governo para a abertura de concurso para recrutar 70 novos técnicos operadores de telecomunicações de emergência para o CODU.

“Se cá tivéssemos os 30 a trabalhar em pleno já era uma grande ajuda”, acrescenta Pedro, que ao ouvir a quarta chamada do dia percebe que o seu turno se vai prolongar para além das oito horas. São 15h45 quando a ambulância número 3 é chamada a assistir Carolina Freire que teve uma quebra de tensão no lar de Campolide, onde passa o dia. Desta vez a viagem segue até ao Hospital de Santa Maria e já só perto das 17h é que regressam à base. Pedro vai tomar banho, treinar artes marciais até às 22h para voltar ao trabalho à meia-noite.

Luís não tem tempo para pausas. Do lugar de condutor passa para o de passageiro – nunca podem fazer mais de dois turnos seguidos e nunca os dois a conduzir – e ao volante senta-se Tiago, o técnico que entra ao serviço para o turno da tarde. As escalas e as regras são rígidas, mas as chamadas de emergência, essas continuam a ser uma surpresa.

Fonte: Jornal I