3 de Agosto de 1992, eu tinha acabado de chegar ao quartel por volta das 12h30, estava junto à central e o telefone tocou, o tom de voz da Sra. Lurdes (operadora de central de serviço) não fazia prever boa coisa, e assim que desligou dirigiu-se ao pessoal de serviço dizendo:
"dirijam-se para a churrasqueira tudo na brasa que à lá um acidente muito grave, mas não levem os míudos".
Os míudos eramos nós, os cadetes, e nessa altura estávamos dois no quartel, eu e um primo meu.
Quando ela acabou de dizer isto foi quando me deu mais vontade de ir para o local, e então sorrateiramente sem ninguém se aperceber no meio de alguma confusão, consegui entrar para uma viatura pela parte de trás, não imaginava eu o que me esperava.
Já a meio do caminho os meus colegas aperceberam-se que eu também lá ia, e que grande sermão que me deram, ao qual eu respondi: "não me vão deixar aqui por isso siga para a frente".
Quando chegamos ao local, bem era o caos total, um camião de areia com um reboque atrelado cilindrou completamente um casal que estava parado de moto no cruzamento da churrasqueira.
Isto aconteceu porque o atrelado se soltou numa ligeira curva que tem antes do referido cruzamento, e foi "apanhar" justamente este casal que estava no cruzamento parado.
Este acidente marcou toda a gente de uma forma ou de outra, foi um acidente de uma brutalidade nunca antes vista,ficando os corpos completamente desfeitos.
Eu espero não vir a ter problemas com este meu desabafo, mas o termo para o que encontrámos é mesmo este "corpos completamente desfeitos".
No local estava toda a gente estarrecida com o que se estava a ver pois por muito preparado que se esteja, nunca ninguém está à espera de ver um cenário tão horrendo.
Mediante tudo isto restou-nos aguardar pelas autoridades e começar "apanhar" os corpos e perdoem-me a expressão, como quem apanha milho para sacos, sim porque foi precisamente isto que nós fizemos.
Os meus sentimentos naquela hora foram tantos que a minha primeira reação foi virar costas ao local e comecei afastar-me, e se não fosse um colega a chamar-me não sei se não teria mesmo fugido dali para fora. Eu tinha 15 anos e ainda não estava preparado de forma alguma para ver um cenário daqueles, mas quis o destino que assim fosse e por isso mesmo mantive-me ali de pedra e cal até ao fim.
Este é o cruzamento onde se deu o acidente
Espero não ter ferido susceptibilidades ao recordar este acidente, sei que muita gente não gosta de falar sobre coisas más, mas o meu único objectivo é dar a conhecer o nosso trabalho, o nosso dia a dia, o que nós passamos no terreno e em cada situação, e que ninguém pense que é fácil, porque não é, porque nós somos humanos, não somos super heróis como muita gente pensa, e por muito pouco que pareça estas coisas mexem connosco muito mais do que possam imaginar, e muito mais do que nós mesmo queremos.
Gostava também de deixar aqui um pedido a quem se lembrar deste acidente, deixem os vossos comentários, deixem o vosso testemunho se estiveram no local e se lembram de alguma coisa, e aos outros mais uma vez vos peço, deixem as vossas histórias vividas, as vossas situações que mais vos marcaram, e assim até nos poderemos ajudar uns aos outros.
Afinal de contas os BOMBEIROS estão sempre prontos para ajudar...
Meu amigo tiro-te o meu chapéu, o teu trabalho esta fantástico, espero que tenhas tempo e vontade para continuar.
ResponderEliminarMuitos parabéns.
Obrigado Joel eu vou continuar com toda a certeza. Obrigado
EliminarOlá está aqui um trabalho muito bem elaborado, quanto ao acidente em causa lembro-me bem dessa data e só tive coragem de ver apenas as fotos que foram publicadas no dia seguinte. Foi triste o que aconteceu muito triste mesmo, por terem sido seifadas duas vidas daquela forma e ainda por cima ao que pareceu na altura falou-se que não era a primeira vez que o reboque se soltava do camião. Abraço
ResponderEliminarMuito obrigado se por ventura conhecer pormenores relevantes por favor diga, e continue acompanhar a página que vai valer a pena. Abraço
Eliminarcomo me lembro meu amigo... acho que nao sai da memória de todas as pessoas que assistiram aquele horror... :(
ResponderEliminarera pequenita (8 anos), mas aquelas imagens ficaram gravadas para sempre... infelizmente esta estrada é rica em acidentes tragicos :(
bem lembrado amigo...
continua com o otimo trabalho
Olá Ana, obrigada pelo feedback eu vou continuar com certeza, estejam atentos pois vou falar de muitas situações ocorridas na nossa terra. Obrigada
ResponderEliminarSe um homem quer ser um bombeiro, como ele deve preparar melhor-educação, fitness,...A capacidade de ajudar os outros e se divertir enquanto faz isso não tem preço...Ser bombeiro é um trabalho corajoso...Próximo post: Lições de Unmanliness grande trabalho meu amigo os meus parabéns
ResponderEliminarjose soares
Obrigado pelo apoio José.
EliminarGrande abraço
Parebens amigo, por estes relatos que se passam com voces bombeiros, porque para quem esta do lado de fora nem sempre tem a noçao do que voces passam. Lembro-me deste acidente em especial porque vivo relativemente perto e vi o acidente ao loge, pois como so tinha 9 anos nao me deixaram ir ver de perto. Está ainda tambem presente na memoria e todo o aparato que foi. abraço e continuaçao.
ResponderEliminarObrigado André pelo feedback, continua atento porque vai valer a pena. Abraço
EliminarComo me lembro ainda desse acidente, andei com uma pá nas mãos que fui buscar á drogaria em frente a apanhar aqueles órgãos que andavam espalhados pelo chão, houveram alguns restos que ficaram enterrados naquele cruzamento que na altura lá existia. Fui um dos que levou aqueles dois corpos desfeitos para a morgue do hospital velho de Penafiel, nunca mais me esqueço que em cima da pedra estava a primeira vitima por afogamento na piscina das termas, foram tempos que jamais irei esquecer...
ResponderEliminarPois foi meu primo eu não falei em ti porque não sabia qual seria a tua reação.
EliminarSem dúvida alguma que é impossível esquecer aquele cenário tão triste.
Obrigado pelo teu feedback.
Continua atento que muita coisa interessante ainda está por publicar.
Abraço
Olá Filipe...
ResponderEliminarParabéns pelo tua dedicação a uma das profissões tão difícil e , por vexes, tão cruel pelo que os vossos olhos vêem...e não posso de deixar uma palavra de Saudade pelos felizes e bons momentos passados com o nosso CEF...Saudades!
Até breve
Maria Moura
desculpa.."vezes"
ResponderEliminarObrigada pelo feedback, continua atenta porque muito ainda está para vir.
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